Epidemia de obesidade X epidemia de dietas e fórmulas de emagrecimento. Por que com tanta informação disponível sobre as mais diversas dietas, a população continua a engordar no Brasil e no mundo?
DIETAS ESTÃO FADADAS AO FRACASSO SE NÃO ESTIVEREM AMARRADAS A UM TRATAMENTO PARA EMAGRECER CONTÍNUO E INDIVIDUALIZADO, QUE REALMENTE ATAQUE A CAUSA DO PROBLEMA

Todo dia aparece uma dieta nova no mercado, na capa de uma revista, em um programa de televisão. Até "dieta da luz" já foi propagada na mídia. Paralelamente, multiplicam-se as fórmulas milagrosas de emagrecimento, algumas delas criminosas, com várias substâncias "tarja-preta". Aguardados com expectativa, os congressos médicos sobre obesidade trazem sempre as mesmas coisas, travestidas de novidades. Enquanto isso, a população continua engordando em todo o mundo. A OMS alardeia números impressionantes de pessoas com excesso de peso nos quatro continentes, inclusive nos países pobres. O Brasil não foge à regra e já tem quase a metade da população acima do peso ideal. Mas, afinal, por que isso está acontecendo? As dietas e os remédios disponíveis não estão dando conta do problema? Em um mundo com tanta informação disponível, por que as pessoas não fazem as dietas divulgadas na mídia e emagrecem de uma vez por todas?

Para o Dr. Alexandre Merheb, primeiro médico nutrólogo formado no país, que já atendeu mais de 40 mil pacientes com problemas de excesso de peso, a grande maioria das opções de tratamento que vêm sendo propostas encara o problema da obesidade de
forma muito simplista, fazendo crer que o corpo humano reagiria espontaneamente à dieta, queimando gorduras em uma situação de "crise de energia" gerada por comer menos (às vezes até passar fome) e fazer mais exercícios físicos. "Isso nem sempre é verdade. A gordura estocada nas células adiposas tem algumas características que tornam sua queima bem mais complexa do que se imagina. Apesar de ser muito rica em energia, a gordura, ao ser queimada, libera calorias muito lentamente (não mais que
duas por minuto). Por isso, ela é mais fácil de ser queimada em repouso do que em atividades físicas! Ao longo do dia, ela é, a maior parte do tempo, protegida pela insulina, o hormônio fabricado pelo pâncreas", diz.


Bom e mau queimador de gordura -
O especialista explica que a gordura só pode ser queimada nos momentos do dia em que as concentrações sangüíneas de insulina estiverem quase zeradas. Se por um desvio de metabolismo adquirido ao longo da vida, o indivíduo tem um pâncreas hiperativo, inchado, produtor de quantidades excessivas de insulina (o que costuma acontecer em comedores compulsivos de carboidratos), ele será um "mau queimador" de gordura. Assim, ao ser privado de energia alimentar em
dietas de baixas calorias, o indivíduo com um pâncreas desregulado não queima prioritariamente gordura, e sim os estoques de carboidratos armazenados nos músculos. Nesse caso, a perda de peso traduz mais desabastecimento temporário do "combustível" dos músculos do que emagrecimento com redução de tecido adiposo propriamente. "Uma balança energética deficitária sempre vai fazer levar à perda de peso, mas nem sempre vai queimar aquilo que o corpo realmente estoca em excesso:
GORDURA CORPORAL. Portanto, em vez de ficar contando calorias, o que não quer dizer muita coisa, deve-se dar atenção à carga glicêmica, à quantidade de açúcares dos alimentos", diz.

Por essas e outras razões, o nutrólogo tem criticado o conceito de dieta popularizado no senso comum (restrição calórica por conta de menor ingestão de alimentos) e defendido um retorno à origem da palavra, associada a estilo de vida. Segundo ele, o que diferencia "dieta" de "tratamento para emagrecer com mudança do estilo de vida" é que a primeira tem um cunho temporário, capaz de reduzir o peso corporal - e não o depósito de gorduras - enquanto durar a "crise" estabelecida com as restrições impostas ao cardápio e o reforço das atividades físicas. Já em um tratamento contínuo e individualizado, procura-se corrigir, em um primeiro momento, os erros de metabolismo (o que se consegue desacelerando o ritmo de produção de insulina - reeducação metabólica). Já em um segundo momento, corrigem-se os hábitos de vida (reeducação alimentar + atividade física), de forma a se conseguir que o dia-a-dia não engorde mais como antes e que se possa manter um peso mais saudável. "Antes de se aprender a comer, a selecionar melhor os alimentos, deve-se aprender a queimar as gorduras. Uma pessoa que sabe queimar gorduras nos momentos do dia em que seus níveis de insulina estão suficientemente baixos consegue levar uma vida normal, sem grandes restrições alimentares e com níveis de atividade físicas bem razoáveis, sem acúmulos progressivos e insidiosos de gordura corporal. Entretanto, se não for feita a regulagem na máquina, a pessoa tem grandes chances de, depois de uma dieta de restrição calórica, engordar de novo e cair no chamado efeito sanfona", enfatiza.


Carboidratos -
Indagado sobre as diferenças entre o tratamento para emagrecer que adota, baseado, em um primeiro momento, na restrição radical do consumo de carboidratos, e as badaladas dietas de Atkins (inclusive a nova versão) e a de South Beach, o Dr. Alexandre Merheb diz que a diferença básica é a metodologia empregada. "O Dr. Robert Atkins surgiu há 30 anos como uma opção genial às propostas convencionais. Ele mostrou ao mundo a necessidade de se repensar os conceitos tradicionais até então vigentes na área de emagrecimento, baseados no critério de economia energética. Mas, com o passar do tempo, a dieta dele foi se desviando perigosamente do objetivo cientifico maior e se transformando em um grande negócio, envolvendo milhões de dólares com a venda de produtos especiais, livros de receitas, enfim, dando origem a uma preocupação mais mercantilista do que médica. Sempre fui - e continuo a ser - contra a publicação de livros que prometem solucionar o problema da obesidade sem o acompanhamento de um médico responsável, não importa o sistema de tratamento apresentado, seja o de contagem de calorias ou a chamada dieta das proteínas. Zerar carboidrato em um esquema alimentar deve ser uma atitude temporária e administrada por médicos experientes para que se possa prevenir problemas de maior ou menor intensidade. Um dos pontos cruciais quando se utiliza a metodologia inicial de retirar carboidrato da dieta é ter a sensibilidade de saber em que momento e de que forma se deve reintroduzi-lo. Isso varia de pessoa a pessoa, porque cada um tem um metabolismo e um estilo de vida próprio, e os carboidratos são essenciais à alimentação de qualquer pessoa", diz.

De acordo com o relato de vários pacientes, uma das conseqüências positivas do tratamento utilizado na clínica do nutrólogo, o Espaço Merheb, é o controle da gula, da perigosa compulsão alimentar, que está no gênesis da maior parte dos casos de excesso de peso e obesidade. "Quando comemos carboidratos, liberamos insulina pelo pâncreas. Em contrapartida, obrigatoriamente, existe uma queda de um neurotransmissor chamado serotonina, que, quando presente, controla fome, compulsão, ansiedade e mantém a auto-estima elevada. Cortando aproximadamente a zero a ingesta de carboidratos na primeira fase do tratamento, conseguimos, quase que imediatamente, um aumento reflexo da produção de serotonina, o que logo irá gerar uma sensação de desapego pela maior parte dos amidos e doces em questão, fim da fome e controle da ansiedade com elevação de auto-estima. É muito gratificante quando transformamos uma pessoa faminta, compulsiva e ansiosa em uma pessoa com mais autocontrole pela ausência desses fatores", conclui.
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